Nazismo: uma das várias expressões do socialismo – Parte 1

Publicado: julho 24, 2013 em Nazismo
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Talvez a falácia mais persistente em toda história do pensamento político seja a alegação de que o nazismo seria legítima expressão do capitalismo. Até hoje o nazismo é situado como um movimento de “direita” permanecendo no mesmo lado do espectro político em que se encontra a democracia liberal. Este mito monstruoso carece de refutação. Para tanto devemos memorar as origens do nazismo. O National Deutsche Arbeiterpartei, ou seja: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães foi fundado 1919 pelo serralheiro Anton Drexler e o jornalista Karl Harrer baseado no trabalhismo nacionalista e no antissemitismo. Neste ano Drexler escreveu um artigo intitulado: “Meu despertar político” de subtítulo: “Do diário de um alemão socialista trabalhador” que influenciaria fortemente o nacional socialismo de Hitler. Neste texto Drexler afirmava que o partido deveria usar das classes trabalhadoras para vigorar seus intentos antissemitas. Ele alegava que os judeus usurparam 80% de toda a riqueza alemã e que por isto o proletariado deveria se tornar a força capaz de combater esta ameaça capitalista. Drexler declarou várias vezes que somente o “socialismo cristão” daria forças para lutar contra este mundo “materialista e talmúdico”.

Hitler compreendeu bem a doutrina socialista do Partido desde o momento em que começou a espioná-lo e logo se identificou com suas perspectivas. Após aderir ao movimento como membro oficial do Partido, Hitler rapidamente ascendeu ao poder devido a sua oratória acrescendo a sigla do partido o termo “Socialista”. Em fevereiro de 1920, Hitler anuncia a política do partido chamada de “Programa Vinte e Cinco Pontos ”. Este texto escrito em conjunto com Drexler e Feder marcava o pedido de revogação do Tratado de Versalhes e do Tratado de Saint Germain. Entre as diretrizes nazistas estavam: um Estado assistencialista capaz de fornecer todos os meios de vida para o cidadão; sujeição do indivíduo ao interesse coletivo; supressão de rendas não oriundas do trabalho direto; proibição dos juros; nacionalização de grandes empresas; divisão do lucro das pequenas empresas; aumento das pensões à alemães; entrega de grandes lojas a administração comunal; controle da produção, preços e salários; desapropriação de terras para reforma agrária sem indenização; proibição da especulação fundiária; controle da imprensa; e por fim, a expatriação e desapropriação de judeus – todas, considerações claramente socialistas.

Todos os 25 pontos do regime nazista estariam subjugados a um poder central revelando a real natureza do regime nazista: um sistema político-econômico baseado na propriedade estatal dos meios de produção. Esta perspectiva em nada se difere do governo soviético senão por um única característica: a suposição de que havia a manutenção da propriedade privada. O motivo para os nazistas alegarem que conservariam a propriedade privada eram simples: primeiramente a Alemanha ainda preservada certos valores democráticos ocidentais ao contrário da Russia czarista; em segundo os nazistas tinham vislumbrado o fracasso do marxismo devido a breve eliminação da propriedade privada e seu recuo com a Nova Política Econômica de Lênin. Eles não queriam a revolta dos alemães com ideias demasiadamente radicais nem o colapso econômico. É extremamente óbvio que as políticas nazistas deste programa alcançaram o mesmo nível de radicalismo socialista das 10 regras instituídas por por Marx em O Manifesto do Partido Comunista para transformar uma nação capitalista em socialista.

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Minha Luta – obra de Hitler no qual o líder do Partido narra suas perspectivas ideológicas.

Nacional Socialismo vs Marxismo e Liberalismo

Inicialmente os nazistas assumiram as características do socialismo radical visando ascender ao poder através da força. Entretanto após o fracasso do golpe de Estado do Putsch da Cervejaria em 1923, Hitler compreendia que estas perspectivas seriam ineficientes, levando-o a desenvolver uma nova e distinta concepção. A diferença entre o nacional socialismo alemão, o comunismo e a socialdemocracia como com as demais formas de socialismo pode ser encontrada em seu livro; Mein Kempf. Segundo Hitler Marx havia se apoderado do termo socialismo anulando sua personalidade nacional. O socialismo real não seria a luta de classes, mas ordem de classes já que o marxismo jamais pudera se consolidara em função de ignorar a personalidade humana. Para Hitler, a diferença do socialismo racista e do marxismo seria que o primeiro reconhece o indivíduo e assim o submete ao coletivismo nacionalista. No Capítulo 4 Hitler cita: “A concepção racista deve ser completamente diferenciada (do marxismo) desde que reconhece não só o valor da raça como o do próprio indivíduo, duas colunas sobre ao qual deve repousar todo o edifício.”

Ao criticar o marxismo alegando que ela nega a natureza nacionalista e racial em função de uma identidade homogênea e internacional, Hitler o coloca na mesma posição capitalista  que segundo ele havia “internacionalizado os valores nacionais”. O líder nazista ataca ambos quase que ao mesmo tempo. No capítulo X de Mein Kempf, Hitler faz sua descrição do colapso do Império Alemão. Segundo ele os capitalistas tinham uma grande responsabilidade neste evento: “Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por- uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista”. Como os primeiros nacional-socialistas, Hitler considerava que o capitalismo e o marxismo lutavam para tomar posse da indústria alemã o que declararia um dos dois como vencedor. Naturalmente o nacional socialismo através de seu patriotismo nacionalista, seria promulgado a força necessária para evitar este destino.

O líder nazista alagava que capitalistas e marxistas tentavam envenenar as massas alemães destruindo o Reich enquanto conflitavam num mesmo propósito. A partir destas considerações o ditador escrevera no capitulo X: “O que a chamada imprensa liberal fez antes da Guerra foi cavar um túmulo para a nação alemã e para o Reich. Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos o miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores, os judeus”.  Criticando o governo Hitler cita: “Que fez o Governo para resistir a esse envenenamento em massa do povo alemão? Nada, absolutamente nada! Alguns fracos decretos, algumas multas por ofensas tão graves que não podiam ser desprezadas, e nada mais”! Para Hitler, o avanço do judaísmo, do capitalismo e do marxismo declaravam que a impressa seria uma arma destas ideologias para assegurar a derrota do Reich. Deste modo, Hitler considerava que uma mudança de paradigmas governamentais seria indispensável para um novo modelo.

Hitler associava o bolchevismo ao que intitulava “capitalismo internacional e judeu” as vezes representado pelas políticas de tolerância racial francesa: “A internacionalização da economia alemã, isto é, a exploração do trabalho alemão por parte dos financeiros judeus internacionais, somente será praticável em um Estado politicamente bolchevizado. Mas a tropa de assalto marxista do capitalismo internacional judaico só poderá quebrar definitivamente a espinha dorsal do Estado alemão mediante a assistência amigável de fora. Por isso, os exércitos da França devem ocupar a Alemanha, até que o Reich, corroído no interior, seja dominado pelas forças bolchevistas a serviço do capitalismo judaico internacional”. Estas alegações por mais estranhas que possam parecer tem certo fundamento. Haviam banqueiros judeus na Alemanha e EUA que apoiaram a revolução bolchevique e que tentavam penetrar na Alemanha. Porém Hitler desejava mais que expulsá-los, mas iniciar sua investida militar na Europa Ocidental, assim conquistando a Franca. Unindo isso a sua crítica ao marxismo e à URSS, seu real propósito era dominar ambos os lados.

Em Mein Kempf fica clara a aversão de Hitler possuía com relação a economia de mercado. No Volume 2 Capítulo VII, ele cita: “Em 1919-20 e também em 1921, eu assisti a alguns das reuniões os burgueses (capitalistas). Invariavelmente, eu tive o mesmo sentimento em relação a estes como para a dose obrigatória de óleo de mamona em meus dias de infância… E por isso não é de estranhar que as massas sãs e imaculadas devem fugir desses comícios burgueses “como o diabo foge da água benta”. Em outra parte do livro, Hitler culpava o avanço da economia de mercado através da bolsa de valores que segundo ele, teria contribuído para a ruína da economia nacional, subtraindo a propriedade dos alemães: “Um sintoma da ruína econômica foi a lenta eliminação do direito de propriedade individual e a passagem gradual da economia do povo para a propriedade das sociedades por ações. Por esse sistema, o trabalho desceu a objeto de especulação doa traficantes sem consciência. A alienação da propriedade aos capitalistas progrediu. A Bolsa começou a triunfar e preparou-se a pôr, lenta, mas firmemente, a vida da nação sob sua proteção e controle”.

Hitler jamais aceitou qualquer comparação com o capitalismo, sempre defendendo sua versão do socialismo. Em 21 de maio 1930, Hitler falou a Otto Strasser em Berlim: “Eu sou um socialista e um tipo muito diferente de socialista de seu amigo rico, Conde Reventlow (…) O que você entende por socialismo nada mais é do que o marxismo”. Mais tarde, Otto Strasser deixou o Partido sob a alegação de que Hitler havia traído os objetivos socialistas do nazismo uma vez que teria supostamente apoiado capitalistas. Grandes segmentos do Partido nazista apoiavam firmemente posições socialistas, revolucionárias e anticapitalistas e esperavam uma revolução social e uma revolução econômica, principalmente quando o partido ganhou o poder em 1933. Milhões de membros do Sturmabteilung (SA) estavam comprometidos com o programa socialista oficial do partido. O líder da SA Ernst Röhm visava uma “segunda revolução” (a primeira foi a conquista do poder pelos nazistas) visando combater qualquer resquício de capitalismo no partido, enfrentando diretamente membros da ala conservadora liderada por Heinrich Himmler e Reinhard Heydrich, que consideravam que Hitler deveria se apoiar aos capitalistas.

A postura de Hitler ao assumir o poder do Partido nazista foi sempre uma posição pragmática entre as facções conservadoras e revolucionárias, aceitando propriedade privada e permitindo que empresas privadas capitalistas existissem desde que aderissem aos objetivos do estado nazista. No entanto se uma empresa privada capitalista resistisse aos objetivos nazistas, ele próprio procurava destruí-la. Quando os nazistas alcançaram certo poder, a Röhm’s SA lançou ataques contra indivíduos considerados associados à ala conservadora sem a autorização do líder. Hitler considerou estas ações independentes uma violação e ameaça à sua liderança, bem como uma ameaça para o regime porque alienaram o presidente conservador Paul von Hindenburg e o exército alemão comprometendo o relacionamento do regime nazista com eles. Isso resultou na expurgação de Ernst Röhm e outros membros radicais da SA no que veio a ser conhecido como a Noite das Facas Longas. O que poderia parecer uma inclinação contrária ao socialismo nada mais era que a manutenção de uma imagem.

O Führer nunca admitiu qualquer afeição ao pensamento liberal nem absorveu sua influência como o fez com o marxismo. Hermann Rauschning o Governador Nazista de Dantzig, era muito próximo de Hitler e escreveu vários textos referentes aos encontros que tinha com o Führer. Hitler citou durante várias vezes sua influência bolchevique e seus planos para os soviéticos: “Eu aprendi muito do marxismo, e eu não sonho esconder isso (…) O que me interessou e me instruiu nos marxistas foram os seus métodos”. Hitler chegou a dizer que converteria o marxismo em nacional socialismo: “Não é a Alemanha que será bolchevista, é o bolchevismo que se tornará uma espécie de nacional socialismo. Aliás, existem entre nós e os bolchevistas mais pontos comuns do que há divergências, e, antes de tudo, o verdadeiro espírito revolucionário, que se encontra na Rússia como entre nós, por toda a parte onde os marxistas judeus não controlam o jogo”. Não é de se espantar que muitos marxistas aderiram ao nazismo, como Hitler enunciara: “Eu sempre levei em conta está verdade e é por isso que dei ordem de aceitar imediatamente no partido todos os ex-comunistas”.

“Tão parecidos, Stalin e Hitler, tão gêmeos, tão construídos de ódio. Ninguém mais Stalin do que Hitler, ninguém mais Hitler do que Stalin.” – Nelson Rodrigues

Christiano Di Paulla

Continuação: https://resistenciaantisocialismo.wordpress.com/2013/07/24/nazismo-uma-das-varias-expressoes-do-socialismo-parte-2-2/

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comentários
  1. Sergio disse:

    Mais claro que água. Muito bom o seu texto, continue, sempre compartilho os teus escritos.

  2. adrianouriel disse:

    Republicou isso em ADRIANOURIELe comentado:
    Interessante.

  3. O Reacionário disse:

    O Nazismo era uma doutrina socialista, mas não no socialismo podre e escroto do Marx! E o nazismo se aproximava da extrema direita, enquanto o fascismo sim era extremamente de esquerda.

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