Nazismo: uma das várias expressões do socialismo – Parte 2

Publicado: julho 24, 2013 em Nazismo
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O Nacional Socialismo pela ótica de Goebbels

Hitler não foi o único a se pronunciar simpatizante de certas perspectivas marxistas nem de narrar certas semelhanças com o nazismo. O famoso ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, chegou a declarar que haviam similaridades comparativas. Pouco após a morte de Lênin ele publicou uma matéria no New York Times dizendo: “O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, no qual Hitler é patrão e pai persiste em acreditar que Lênin e Hitler podem ser comparados”. Mais tarde o ministro da propagando buscou definir sua concepção do socialismo antissemita: “O que é que o antissemitismo tem a ver com socialismo? Gostaria de colocar da seguinte forma: o que é que o judeu tem a ver com o socialismo? O socialismo tem a ver com trabalho. Quando é que ninguém nunca o ver trabalhando em vez de saquear, roubar e viver do suor dos outros? Como socialistas, somos adversários dos judeus, porque vemos em hebreus a encarnação do capitalismo, do mau uso dos bens da nação”. Inspirado nos primeiros nacional socialistas, Goebbels acreditava que os judeus eram uma classe burguesa que se apropriava indevidamente dos bens alemães.

Na obra Extratos da Época de Luta de 1935 Goebbels distingue socialismo de marxismo: “Vale lembrar antes de submeter-se à essa leitura de que a visão de socialismo do movimento nacional-socialista não se tratava do mesmo socialismo soviético, embora podemos notar que o materialismo histórico de Marx tem raiz em Hegel, e que a crítica capitalista do nacional-socialismo por sua fez tenha raiz em Marx e consequentemente em Hegel, indo até Heráclito Éfeso em aproximadamente 500 anos antes de Cristo, suas visões sobre a sociedade e economia são totalmente diferentes.” Entretanto, a critica de Goebbels não se limitava somente ao marxismo: “O pecado do pensamento liberal é ignorar a força de construção nacional socialista, assim permitindo que as suas forças se dispersem em objetivos que não são do interesse da nação. O pecado do marxismo é ter degradado o socialismo numa mera questão de salários e de comida, colocando isto em conflito com o Estado e a existência nacional. Entender tais factos leva-nos a uma nova forma de socialismo, que vê a sua natureza como nacionalista, fortalecedora do Estado, libertadora e construtiva…”

Em Extratos da Época de Luta o líder da propaganda nazista declara que a economia de mercado foi responsável pela crise de 1929 como seria pela ruína do mundo: “Capitalismo não é uma coisa, mas sim uma relação para com ela. Não são as minas, fábricas, imóveis e terrenos, instalações ferroviárias, dinheiro e ações, as causas de nossa necessidade social, mas sim o abuso destes bens do povo. O capitalismo não é nada mais que a usurpação do capital do povo e, de fato, esta definição não encontra sua definição na limitação da pura economia. Ela tem sua validade ampla em todas as áreas da vida pública. Ela representa um princípio. Capitalismo é, sobretudo, o uso abusivo dos bens comuns, e a pessoa, que comete este abuso, é um capitalista”. Goebbels considerava que o capitalismo era uma doutrina irresponsável e contrário aos interesses da nação, enquanto o socialismo significaria ordem: “No Socialismo é o contrário. A cosmovisão socialista começa no povo e então avança sobre as coisas. As coisas se submetem ao povo; o socialista coloca o povo sobre tudo, e as coisas são só meios para se atingir os fins”.

Goebbels também fala da superioridade socialista com relação ao capitalismo: “Em um sistema capitalista, o povo serve à produção, e esta é dependente por sua vez do poder do dinheiro. O fantasma do dinheiro triunfa sobre a presença viva do povo. Em um sistema socialista, o dinheiro serve à produção, e a produção serve ao povo. O fantasma dinheiro se submete à comunidade orgânica de sangue – povo. O Estado pode ter nestas coisas somente um papel regulador. Ele revela os eternos conflitos entre capital e trabalho, seu caráter destrutivo. Ele é o juiz entre ambos, mas que age implacavelmente quando o povo está ameaçado. Existe para ele somente uma clara decisão, seja como for. Se ele se coloca numa disputa econômica ao lado hostil ao povo – pode ser tão nacional como quiser – então ele é capitalista. Ao contrário, caso ele sirva à justiça, e que é análogo à necessidade estatal, então ele é socialista”. Por estas vias, Goebbels assim como Hitler acreditavam num novo tipo de socialismo anticapitalista que mais se aproximava das perspectivas stalinistas que das perspectivas liberais.

Nem Hitler ou Goebbels jamais definiram-se no espectro embora concordassem que o nazismo era uma forma nacionalista de socialismo. Em Mein Kempf direta e esquerda são criticadas: “Hoje, nossos políticos de esquerda, em particular, estão constantemente insistindo em sua política externa corajosa e obsequiosa que resulta necessariamente do desarmamento da Alemanha, enquanto a verdade é que esta é a política dos traidores…” Mas os políticos da direita merecem exatamente a mesma censura. Foi por sua miserável covardia que permitiu a aqueles rufiões de judeu que entraram no poder em 1918, roubar a nação de seus braços”. Quando perguntado se ele apoiava a direita burguesa, Hitler afirmou que o nazismo não era exclusivamente para qualquer classe e indicou que não era favorável à esquerda nem à direita, mas conservava elementos “puros” de ambos: “Do campo da tradição burguesa, é preciso uma determinação nacional e do materialismo do dogma marxista, socialismo vivo e criativo.” Para alguns historiadores seria menos equivocado mencionar o nazismo como uma doutrina de centro que situá-lo simplesmente como “direita”.

Goebbels

Goebbels; representante do anticapitalismo radical do Partido nazista.

O Nacional Socialismo por suas práticas policias e econômicas

Embora os nazistas não tivessem assumido qualquer posição no espectro político, sempre defenderam a tese de que era um movimento legitimamente socialista e que toda outra forma de socialismo era falsa – algo bem similar ao extremismo marxista que rejeitava o socialismo utópico, socialdemocrata e o fabianismo. Resta questionar se o nazismo era economicamente socialista na prática. Inicialmente Hitler considerava questões de cunho econômico meramente secundárias. Hitler afirmou que nenhum país se torno grande na história em face a sua economia. Para os nazistas os rumos seriam definidos pela imposição do mais forte sobre o mais fraco de tal forma que um pequeno grupo de indivíduos governariam as massas. Os nazistas chegaram até mesmo a culpar todos os governos germânicos modernos por supostos fracassos proporcionados pela doutrina materialista encontrada no capitalismo industrial e no marxismo revolucionário. Sobre sua postura estar mais inclinada para o socialismo ou para o capitalismo como modelo econômico, os nazistas nunca se pronunciaram. Hitler certa vez se pronunciou a respeito dizendo: “A característica básica da nossa teoria econômica é que não temos nenhuma teoria.”

Na prática embora ao regime nazista alegava aceitar a propriedade privada, o verdadeiro conteúdo da propriedade dos meios de produção residia no governo alemão. Mesmo que Hitler tenha dito em certa ocasião:  “eu absolutamente insisto em proteger a propriedade privada … devemos incentivar a iniciativa privada”, noutra justificou-a dizendo que o governo deveria ter o poder de regular o uso da propriedade privada para o bem da nação. Como citou Ludwig Von Mises, era o governo e não o proprietário privado quem determinava o que deveria ser produzido, em qual quantidade, por quais métodos, e a quem seria distribuído, assim como quais preços seriam cobrados e quais seriam os valores dos salários pagos, e quais dividendos ou outras rendas seria permitido ao proprietário privado receber. Em suma, era um regime tão estatizante no sentido de uma economia planificada quando aquele idealizado pelos socialdemocratas modernos. Para os nazistas o bem comum sempre estava acima do bem privado, como roga o coletivismo econômico socialista. Os nazistas apenas disfarçaram sua planificação econômica parcial para não afugentar os industriais da ala conservadora que financiara seus primeiros dias.

Os nazistas fizeram mais uso de políticas socialista quanto de políticas capitalistas. Quando chegaram ao poder em meio aos efeitos da Grande Depressão seguiram linhas keynesianas e socialdemocratas. Hjalmar Schacht foi eleito presidente do Reichsbank em 1933 e ministro da Economia em 1934. Vigoraram programas de obras públicas apoiados por déficit de gastos como a construção da rede Autobahn a fins de estimular a economia e reduzir o desemprego. Foi erguido um imenso Estado assistencialista a partir da nomeação de Erich Hilgenfeldt como o presidente do Bem-estar do Povo (NSV) que marcou o início a dissolução de todas as instituições de previdência privada incluindo apenas arianos no novo modelo estatal. Os nazistas também promoveram todo tipo de seguridade social através conceito nazista de Volksgemeinschaf: velhice, aluguel, desemprego, invalidez, empréstimos sem juros para casais, seguro de saúde etc. A propriedade governamental expandiu-se de forma exorbitante: aviação, petróleo sintético e borracha, alumínio, produtos químicos, ferro, aço, equipamentos do exército etc. Os ativos de capital da indústria estatal duplicaram e a propriedade estatal das empresas alcançou mais de 500 empresas. As finanças do governo para as empresas estatais quadruplicaram de 1933 a 1943.

No final da década de 1930 a produção e os valores de preços, salários, alugueis e demais aspectos econômicos já estavam sob total controle do Estado. A tributação, regulamentação e restrição ao setor privado eram extremamente preocupante para os poucos empreendedores capitalistas que ainda resistiam no país com medo de serem totalmente expropriados. Um empresário chegou a citar: “Esses radicais nazistas não pensam em nada além de distribuir a riqueza, enquanto alguns empresários foram forçados a estudar as teorias marxistas para melhor compreender o sistema alemão atual”. Em Hitler outubro de 1937 decretou uma medida que dissolvia todas as corporações com um capital inferior a US$ 40.000 e proibia o estabelecimento de novas com capital inferior a US$ 200.000. O regime nazista também fechou a maior parte das bolsas de valores, reduzindo-as de 21 a 9. Eles também instituíram a Frente Trabalhista Alemã para substituir os sindicatos de forma idêntica as políticas trabalhistas de Lenin. E embora o partido nazista tenha feito algumas privatizações foram demasiadamente modestas, visando agradar a ala corporativa, entre os anos fiscais de 1934/35 e 1937/38 as privatizações representaram apenas 1,4% das receitas do governo alemão.

Os efeitos nocivos destas políticas socialistas já eram percebidas desde 1933 uma vez que os nazistas aumentaram a impressão de papel moeda para financiar seu belicismo. Como consequência houve aumento da inflação o que levou os nazistas a um controle de preços e salários em 1936. Este controle produziu demasiada escassez tal como ocorrera em todas as notórias experiencias socialistas, da URSS a Venezuela chavista. Para alguns historiadores esta postura estatizante seria apenas um reflexo do período de guerra. Entretanto estas características sempre estiveram presentes desde a fundação do Partido até seus últimos dias. Como descrevem os economistas liberais, principalmente os austríacos; o que difere um sistema legitimamente socialista de um sistema legitimamente capitalista é a liberdade dada a propriedade privada. Embora os nazistas não fossem tão radicais neste quesito quanto os comunistas, eram o mais próximo deles se comparado a outros tipos de socialismo. Hitler compreendia isso como deixou claro em suas declarações. Mais que isso, os nazistas copiaram inúmeras perspectivas políticas da ótica marxista; eles substituíram a “ideologia de classes” por “ideologia de raças” e a “luta de classes” por “luta de raças”.

O marxismo concebia o homem como mero produto das forças materiais que o cercavam. Sua forma de pensar estaria apenas voltada para classe ao qual pertence. A perspectiva individual nada mais seria que uma ilusão que cedo ou tarde se revelaria falaciosa frente a lei do pensamento coletivo. Os nazistas pensavam da mesma forma, porém com uma nova roupagem; o homem seria produto de forças étnicas sendo distinto por nacionalidade de modo que qualquer desvario individual nada mais seria que uma traição a mesma. Mises classificou esta perspectiva como polilogismo ou seja; “a crença de que há uma multiplicidade de irreconciliáveis formas de lógica dentro da população humana, e estas formas estão subdivididas em algumas características grupais”. Sob a ótima marxista, Ricardo, Bergson, Freud e Einstein estão errados porque são burgueses; enquanto para os nazistas, estão errados porque são judeus. Este argumento usado por Marx e Hitler consiste numa forma de “dividir para conquistar” segredando indivíduos em grupos a fins de criar um inimigo comum para que haja grande mobilização contrária. No geral estes inimigos comuns são um grupo invejado bem-sucedido e em menor número, como os judeus e proprietários dos meios de produção.

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Nazismo e comunismo; primos da publicidade ao intervencionismo econômico.

Christiano Di Paulla

Continuação: https://resistenciaantisocialismo.wordpress.com/2013/07/24/nazismo-uma-das-varias-expressoes-do-socialismo-parte-3/

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