Arquivo da categoria ‘Lições de economia’

Nas ultimas semanas o Brasil foi tomado por um imenso debate a respeito da nova proposta de terceirização. A proposta foi aprovada pela Câmara dos Deputados e segue para a sanção do presidente interino. Grande parte dos partidos, entidades sindicais e a mídia, se posicionaram veementemente contra a proposta alegando que ela prejudicaria os trabalhadores e a economia.  Alegam que a terceirização conduzirá a precarização das condições de trabalho, reduzirá salários, tornará os serviços ineficientes e servirá apenas como um meio das grandes empresas obterem mais lucros. Nas redes sociais as manifestações das massas vão de encontro a tais afirmativas. Há inumeráveis publicações de usuários dizendo que a proposta “escraviza”, “mutila” e “mata” o trabalhador, retrocedendo a época em que os capitães do mato perseguiam os negros. Entretanto, seriam estas objeções factícias?! É o que tratarei neste breve artigo.

Primeiramente devemos compreender no que de fato consiste a terceirização. Para tanto faz-se previamente necessário destacar a diferença entre atividade-meio e atividade-fim. A atividade-meio é aquela que dá suporte a atividade central da empresa, a chamada atividade-fim. Vejamos o exemplo de uma escola. Sua atividade-fim consiste em educar pessoas, o que é feito pelos professores. As atividades-meio são todas aquelas que lhe prestam suporte, mas que não estão diretamente ligadas ao ato de educar, como no caso da segurança, cantina, faxina etc. Visando melhorar os resultados de uma determinada instituição utiliza-se a terceirização como uma forma moderna de organização estrutural. Ela permite a uma empresa ou órgão público transferir para outra suas atividades-meio, reduzindo a estrutura operacional, desburocratizando a administração, diminuindo custos – o que proporciona maior disponibilidade de recursos para a atividade fim.

O primeiro impacto da terceirização para as organizações é a redução da estrutura organizacional, melhorando a velocidadedas tomadas de decisão de cima para baixo, devido a desburocratização administrativa. A organização ganha rapidez e dinamismo, tornando-se mais eficiente no que tange a estrutura de seus processos. O segundo fator a ser considerado é a redução dos custos, já não haverá mais dependência de RH para recrutamento e treinamento de profissionais, além é claro de custos trabalhistas, dentre os quais podemos citar; contribuição previdenciária, 13º salário, férias remuneradas, horas extras, seguro de vida, planos de saúde etc. Uma vez que determinado setor seja terceirizado, estes custos ficam a cargo da empresa contratada para prestar o serviço. A empresa prestadora de serviços terceirizados retirará seus lucros da maximização dos seus resultados, frente à sua capacidade de especialização ou seja; treinar melhor em menor custo – um enigma para seus críticos.

Com a redução da estrutura organizacional, instituições poderão focar seus esforços em sua atividade-fim, garantindo maior concentração de capital intelectual nas tomadas de decisões. Já a economia de recursos tem um impacto ainda maior para as organizações, pois permite maior acúmulo de capital; o que é revertido em investimentos. Com maiores reservas de recursos destinados à produção, aumenta-se à oferta de bens e serviços no mercado, produzindo queda nos preços. Estes capitais também podem ser destinados a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias a fins ampliar a qualidade do que é ofertado. Obviamente tais perspectivas não se aplicam a setores tomados pela interferência estatal, como no caso das Centrais de Atendimento de telefonia no Brasil em que um cartel fora instituído a partir de concessões estatais limitadas, impedindo a existência qualquer pressão de mercado para a melhoria dos serviços. Os bons frutos da terceirização dependem de livre concorrência.

Uma vez que o trabalhador seja contratado por uma empresa que presta serviços terceirizados, a mesma deverá responder pelos seus direitos trabalhistas, pelo seu treinamento, além de se responsabilizar por encaixá-lo no mercado de trabalho. Deste modo são forçadas a focar suas atividades no aperfeiçoamento destes trabalhadores como mão de obra, além de funcionar como efetivas agencias de emprego. Empresas que não se posicionarem deste modo, certamente perderão clientes para seus concorrentes. Por estas vias a terceirização num mercado livre e competitivo leva a uma qualificação cada vez maior da mão de obra, trazendo maior segurança para o trabalhador. Em exemplo, suponhamos que um trabalhador terceirizado seja demitido por uma determinada empresa que obviamente, não tem nenhum vinculo empregatício com ele. Ao voltar para a prestadora de serviços passará por uma reciclagem e será realocado noutra, o que lhe garante estabilidade, além de estabilizar a taxa de desemprego.

Na maioria dos países do mundo há encargos empregatícios que encarem a mão de obra. No Brasil estes encargos estão entre os mais elevados do mundo. Um trabalhador que recebe um salário de R$ 1000,00 custará R$ 2550,00 para a empresa. Em vínculos empregatícios que duram mais de um ano, o custo total pode chegar a R$ 2850,00. Isto significa que um trabalhador que recebe pouco mais de um salário mínimo terá que render para a empresa, quase três vezes o valor que recebe. É por este motivo que as empresas são obrigadas a discriminar a mão de obra menos qualificada, exigindo cada vez mais formação e experiência, o que sempre recai sobre os mais pobres. Sem custos elevados haverá maior número de contratações em curto e médio prazo, reduzindo a adesão ao trabalho informal e a taxa de desemprego. Em longo prazo, uma taxa de desemprego baixa faz com que o mercado de trabalho esteja em procura, proporcionado maiores salários e melhores condições de trabalho.

Ignorando as leis básicas de oferta e demanda, críticos da terceirização alegam que esta lei propiciaria salários menores, maior carga horária e piores condições de trabalho, baseando-se em estatísticas que comparam dados de trabalhadores terceirizados com não-terceirizados. Naturalmente um médico que exerce uma atividade-fim, terá um salário, carga horária e condições melhores que um copeiro que exerce uma atividade-meio. Tal comparação é absurda! Mesmo que a terceirização reduzisse salários haveria como compensação a queda de preços e a melhoria dos serviços e em longo prazo, a melhoria dos salários e condições laborais como citado anteriormente. Outra falácia é a suposição de que as empresas poderão terceirizar qualquer uma de suas atividades. Com exceção do programa “Mais Médicos”, nunca vimos uma atividade-fim terceirizada. Não há evidência histórica de médicos, professores ou engenheiros terceirizados, mesmo porque caso as empresas que prestam serviço fossem capazes de atuar nas atividades-fim, porque não o fariam auferindo lucros maiores?!

Como cita Adam Smith em As Riquezas das Nações, a divisão do trabalho e a redução dos custos possibilitou o aumento da produtividade a níveis inimagináveis, gerando emprego e rendas cada vez mais elevadas, ampliando o desenvolvimento tecnológico e a qualidade de vida. Atualmente a terceirização é sua nova faceta. Estes fatos são evidenciados em países como Singapura e Hong Kong, que praticamente não possuem custos nem burocracias sobre o trabalho tendo como princípio, a soberania da propriedade privada. De 1967 a 2017 o PIB per capita de Singapura saltou de US$ 511 para US$ 85 mil e a taxa de desemprego caiu de mais de 30% para 2,2% (desemprego voluntário). Estes países tiveram as maiores elevações nos índices de qualidade de vida e de desenvolvimento humano das ultimas décadas. Já nações emergentes como a China e Índia só estão se tornando potências econômicas graças à terceirização. Nações que não se adaptarem a esta realidade perderão competitividade; tornando-se incapazes de ofertar bens e serviços com preços baixos e de qualidade.

Conclusão

A terceirização não é um processo novo, mas uma nova roupagem para um processo natural da economia. Não é uma tendência ou modismo, mas uma realidade que chegou para ficar, trazendo benefícios extraordinários, embora caluniados. É lamentável que exista tanta resistência a ela, mesmo porque tais críticas surgem de um estado de ignorância coletiva a respeito de assuntos econômicos. Não é de todo exagero comparar toda esta hostilidade à terceirização a aquela que sofreu o Grande Colisor de Hádrons (LCH). Quando este imenso acelerador de partículas europeu estava prestes a ser usado pela primeira vez, surgiram manifestantes alegando a existências de supostas consequências apocalípticas. Foram proferidas infâmias absurdas, como “o acelerador destruirá o planeta Terra”. Obviamente nada disso ocorreu. O LHC apenas trouxe mais conhecimentos para a física e em longo prazo trará benefícios inimagináveis. O mesmo ocorre com relação à terceirização. Não podemos permitir que tamanha superstição no campo econômico possa barrar inestimáveis benefícios futuros.

singapore

Singapura: uma das nações mais prósperas e mais laissez-faire do mundo, onde não há demasiadas leis trabalhistas nem qualquer tipo de restrição a terceirização.

Christiano Di Paula 

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As redes sociais são conhecidas pelo imenso alcance em que possuem na propagação de ideias. Infelizmente, boa parte destas ideias emergem de pessoas cujos conhecimentos estão entre a fronteira da superstição e do entusiasmo. Há “especialistas” em tudo, mas poucos deles realmente detém conhecimentos sólidos a respeito daquilo que narram. Um exemplo recente, é o artigo Hora de Aceitar que o Capitalismo não deu Certo, de Gustavo Tanaka. O autor começa seu texto dizendo que sua visão não é socialista, mas que também não defende o socialismo e lança sua pérola: “Me desculpem, mas um sistema que leva ao esgotamento dos recursos naturais e desconexão com a natureza, à vidas infelizes com empregos de merda, à desigualdade de oportunidades e padronização de uma vida mecanizada e valorização das pessoas erradas não pode ser considerado um sistema que deu certo.” A partir de então, disserta sobre cada uma de suas colocações.

A primeira alegação do autor é quanto ao suposto esgotamento dos recursos: “Não temos mais reservas minerais. Estamos destruindo a Floresta Amazônica (…) Poluímos nossos rios, lotamos de fumaça nosso ar e estamos destruindo a camada de ozônio. (…) Ou seja, criamos uma sociedade que vive no asfalto, respira fumaça, come alimento com veneno e bebe água suja.” Todavia, as evidencias revelam o contrário; a cada dia novas reservas são descobertas, tanto que o barril do petróleo nunca esteve tão baixo. O desmatamento e a poluição em nada se associam ao capitalismo de livre mercado, já que as nações que estão no topo do Índice de Desempenho Ambiental são Suíça, Luxemburgo, Austrália e Singapura etc. Já as nações que detém a menor poluição do ar são Islândia, Canadá, Finlândia e Estônia. Todas estas são nações que estão entre as mais capitalistas do mundo. Logo a associação entre degradação do meio ambiente e mercado é enfadonha.

A segunda alegação se refere a uma suposta “desconexão com a terra”. Ele diz: “Hoje em dia ninguém sabe mais como se planta um tomate. Achamos que as frutas vem do supermercado. Daquela seção pequena no canto da loja (…) Ao invés de ensinarmos como se cultiva alimentos, ensinamos nas escolas como se passa no vestibular. Afinal, precisamos de pessoas com diplomas e que consigam bons empregos.” Na verdade, o conhecimento agrícola nunca foi comum. Deixamos de ser uma sociedade de coleta e caça para nos tornarmos uma sociedade baseada na divisão do trabalho – o que propiciou nossa sobrevivência. É exatamente isto, que permite que bilhões de indivíduos sobrevivam. Cabe lembrar que ensinar o cultivo de alimentos nas escolas é desnecessário, uma vez que indivíduos diferentes possuem inclinações profissionais diferentes. Não importa o quanto esta disciplina seja lecionada, muitos preferirão se ocupar da engenharia, matemática, física ou arte.

A terceira alegação é de que o homem teme a economia: “Hoje o homem teme a economia. Você vê pessoas amedrontadas com o que pode acontecer com a economia esse ano, com o que isso vai causar no mercado. (…) Mas a Economia não existe. Não é um ser vivo. O homem criou a economia. Nós mesmos criamos um monstro que nos amedronta e controla nossas vidas.” A economia é a ação do homem em busca de melhores condições, por isto é um ser vivo e interpessoal. O temor na economia é quando ao bem-estar comum e suas crises advém das imprecisas ações indevidas sobre ela. Como cita a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, não há como surgirem crises cujo efeito ocorre em cadeia (Crack da Bolsa em 1929) sem um fator exógeno (interferências do governo) uma vez que os empreendedores possuem estimativas distintas e não erram ao mesmo tempo. É a necessidade economofóbica de políticos em controlar a economia, que gera crises.

Aa quarta alegação sugere que somos “escravos do sistema”. Ele diz: “temos um sistema que não permite as pessoas serem quem elas são. Elas vendem suas vidas por um salário no final do mês.” Errado. O trabalhador não se vende, mas aluga sua mão de obra de forma voluntária. Isto não o torna escravo, já que as relações trabalhistas dentro das democracias capitalistas são contratuais e não dependem de coerção física. Além disto, os países mais capitalistas são os que detém as melhores renumerações – o que permite ampla escolha profissional. Estas nações são as que possuem maior poder de paridade e compra per capita, como assinala o FMI: Luxemburgo, Liechtenstein, Singapura, Noruega etc. Lembrando: quando um determinado salário está baixo é porque o mercado está saturado com a oferta de mão de obra, o que indica que alcançou um limiar produtivo. Este limiar em geral vem acompanhado de bens e serviços de melhor qualidade com preços mais acessíveis, agregando a sociedade. A alocação dos menos produtivos é útil a todos.

A quinta alegação é quanto a meritocracia. Ele diz: “Quem merece mais que o outro? Você deve responder que é o cara que se esforçou e se dedicou mais, certo? Talvez eu e você estejamos competindo pela mesma promoção. Eu trabalhei 12 horas por dia e você ‘apenas’ 8. Então a lógica é que a vaga seja minha. Mas eu não tenho filhos, não tenho dívidas, não sou casado e nem tenho familiares doentes. Você tem 2 filhos pequenos, uma esposa sem emprego, dívidas que você herdou e um pai doente e que necessita de cuidados.” Que deseja? Compensar um histórico de escolhas e consequências, impedindo diferenças particulares?! Além disto, a meritocracia é apenas um sistema de gestão administrativa. Subir de cargos numa empresa, não é garantia de maior renda ou maior quantidade de bens. Um indivíduo repleto de tarefas e com pouco conhecimento pode faturar mais com uma ideia inovadora que um profissional desimpedido e graduado.

A sexta alegação vai de encontro ao que sugeri no início desta replica; que o autor é completamente leigo em economia. Segundo ele temos uma sociedade que não valoriza a arte já que “sabe vender é mais útil que uma que sabe criar.” (…) “quem é bom de matemática ganha mais dinheiro que quem pinta, esculpe ou compõe (…) temos músicos virando analistas, artistas plásticos virando assistentes e escritores virando advogados.” Isto ignora as premissas mais básicas da economia; oferta não cria demanda. Não podemos “vender gelo para esquimó,” por melhor que seja nossa retórica. Do contrário; são as necessidades das pessoas que geram bens e serviços. Da mesma forma, ocorre com a arte. Um artista que recebe pouco, por mais talentosos que seja, não atende as necessidades dos apreciadores de seu trabalho. Enquanto isto, o trabalho do matemático que recebe mais que ele, é mais valorizado pela sociedade. Deveríamos impor gostos as pessoas, deixem de valorizar Gauss ou Picasso por alguém que não admirem?!

A sétima alegação é quando a necessidade que as empresas tem em crescer. Ele cita: “As empresas querem crescimento todo ano. Você já viu uma empresa estabelecer a meta de reduzir 15% do faturamento?” E porque o homem desejaria retroceder?! É o crescimento das empresas que gera empregos, faz salários subirem, produzem bens e serviços de qualidade a um menor preço. Portanto são responsáveis direitos pela qualidade de vida. Está claro que o auto nunca teve aula de microeconomia (embora só saiba citar macro). Já o útil argumento diz que não vivemos em equilíbrio. Segundo ele, estamos sempre atarefados sem meios de nos dedicar a questões subjetivas, aos esportes a uma alimentação saudável. Todavia não é isto que os dados indicam. Segundo a OMS as populações mais felizes estão entre as mais capitalistas: Japão, Espanha, Andorra e Austrália. O mesmo quando a qualidade de vida, segundo a OCDE; Austrália, Noruega, Suécia e Dinamarca. Concluo que o autor O autor não entende nada de economia, possui argumentos puramente emocionais e sem dado empírico para respaldá-lo. É lamentável que artigos assim sejam tão propagados.

Fonte do artigo: https://medium.com/@gutanaka/hora-de-aceitar-que-o-capitalismo-n%C3%A3o-deu-certo-ce0ab6125049

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Christiano Di Paulla

O Capitalismo é Moral?

Publicado: janeiro 5, 2016 em Lições de economia