Gustavo Tanaka e a propagação da ignorância econômica

Publicado: janeiro 20, 2016 em Lições de economia

As redes sociais são conhecidas pelo imenso alcance em que possuem na propagação de ideias. Infelizmente, boa parte destas ideias emergem de pessoas cujos conhecimentos estão entre a fronteira da superstição e do entusiasmo. Há “especialistas” em tudo, mas poucos deles realmente detém conhecimentos sólidos a respeito daquilo que narram. Um exemplo recente, é o artigo Hora de Aceitar que o Capitalismo não deu Certo, de Gustavo Tanaka. O autor começa seu texto dizendo que sua visão não é socialista, mas que também não defende o socialismo e lança sua pérola: “Me desculpem, mas um sistema que leva ao esgotamento dos recursos naturais e desconexão com a natureza, à vidas infelizes com empregos de merda, à desigualdade de oportunidades e padronização de uma vida mecanizada e valorização das pessoas erradas não pode ser considerado um sistema que deu certo.” A partir de então, disserta sobre cada uma de suas colocações.

A primeira alegação do autor é quanto ao suposto esgotamento dos recursos: “Não temos mais reservas minerais. Estamos destruindo a Floresta Amazônica (…) Poluímos nossos rios, lotamos de fumaça nosso ar e estamos destruindo a camada de ozônio. (…) Ou seja, criamos uma sociedade que vive no asfalto, respira fumaça, come alimento com veneno e bebe água suja.” Todavia, as evidencias revelam o contrário; a cada dia novas reservas são descobertas, tanto que o barril do petróleo nunca esteve tão baixo. O desmatamento e a poluição em nada se associam ao capitalismo de livre mercado, já que as nações que estão no topo do Índice de Desempenho Ambiental são Suíça, Luxemburgo, Austrália e Singapura etc. Já as nações que detém a menor poluição do ar são Islândia, Canadá, Finlândia e Estônia. Todas estas são nações que estão entre as mais capitalistas do mundo. Logo a associação entre degradação do meio ambiente e mercado é enfadonha.

A segunda alegação se refere a uma suposta “desconexão com a terra”. Ele diz: “Hoje em dia ninguém sabe mais como se planta um tomate. Achamos que as frutas vem do supermercado. Daquela seção pequena no canto da loja (…) Ao invés de ensinarmos como se cultiva alimentos, ensinamos nas escolas como se passa no vestibular. Afinal, precisamos de pessoas com diplomas e que consigam bons empregos.” Na verdade, o conhecimento agrícola nunca foi comum. Deixamos de ser uma sociedade de coleta e caça para nos tornarmos uma sociedade baseada na divisão do trabalho – o que propiciou nossa sobrevivência. É exatamente isto, que permite que bilhões de indivíduos sobrevivam. Cabe lembrar que ensinar o cultivo de alimentos nas escolas é desnecessário, uma vez que indivíduos diferentes possuem inclinações profissionais diferentes. Não importa o quanto esta disciplina seja lecionada, muitos preferirão se ocupar da engenharia, matemática, física ou arte.

A terceira alegação é de que o homem teme a economia: “Hoje o homem teme a economia. Você vê pessoas amedrontadas com o que pode acontecer com a economia esse ano, com o que isso vai causar no mercado. (…) Mas a Economia não existe. Não é um ser vivo. O homem criou a economia. Nós mesmos criamos um monstro que nos amedronta e controla nossas vidas.” A economia é a ação do homem em busca de melhores condições, por isto é um ser vivo e interpessoal. O temor na economia é quando ao bem-estar comum e suas crises advém das imprecisas ações indevidas sobre ela. Como cita a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, não há como surgirem crises cujo efeito ocorre em cadeia (Crack da Bolsa em 1929) sem um fator exógeno (interferências do governo) uma vez que os empreendedores possuem estimativas distintas e não erram ao mesmo tempo. É a necessidade economofóbica de políticos em controlar a economia, que gera crises.

Aa quarta alegação sugere que somos “escravos do sistema”. Ele diz: “temos um sistema que não permite as pessoas serem quem elas são. Elas vendem suas vidas por um salário no final do mês.” Errado. O trabalhador não se vende, mas aluga sua mão de obra de forma voluntária. Isto não o torna escravo, já que as relações trabalhistas dentro das democracias capitalistas são contratuais e não dependem de coerção física. Além disto, os países mais capitalistas são os que detém as melhores renumerações – o que permite ampla escolha profissional. Estas nações são as que possuem maior poder de paridade e compra per capita, como assinala o FMI: Luxemburgo, Liechtenstein, Singapura, Noruega etc. Lembrando: quando um determinado salário está baixo é porque o mercado está saturado com a oferta de mão de obra, o que indica que alcançou um limiar produtivo. Este limiar em geral vem acompanhado de bens e serviços de melhor qualidade com preços mais acessíveis, agregando a sociedade. A alocação dos menos produtivos é útil a todos.

A quinta alegação é quanto a meritocracia. Ele diz: “Quem merece mais que o outro? Você deve responder que é o cara que se esforçou e se dedicou mais, certo? Talvez eu e você estejamos competindo pela mesma promoção. Eu trabalhei 12 horas por dia e você ‘apenas’ 8. Então a lógica é que a vaga seja minha. Mas eu não tenho filhos, não tenho dívidas, não sou casado e nem tenho familiares doentes. Você tem 2 filhos pequenos, uma esposa sem emprego, dívidas que você herdou e um pai doente e que necessita de cuidados.” Que deseja? Compensar um histórico de escolhas e consequências, impedindo diferenças particulares?! Além disto, a meritocracia é apenas um sistema de gestão administrativa. Subir de cargos numa empresa, não é garantia de maior renda ou maior quantidade de bens. Um indivíduo repleto de tarefas e com pouco conhecimento pode faturar mais com uma ideia inovadora que um profissional desimpedido e graduado.

A sexta alegação vai de encontro ao que sugeri no início desta replica; que o autor é completamente leigo em economia. Segundo ele temos uma sociedade que não valoriza a arte já que “sabe vender é mais útil que uma que sabe criar.” (…) “quem é bom de matemática ganha mais dinheiro que quem pinta, esculpe ou compõe (…) temos músicos virando analistas, artistas plásticos virando assistentes e escritores virando advogados.” Isto ignora as premissas mais básicas da economia; oferta não cria demanda. Não podemos “vender gelo para esquimó,” por melhor que seja nossa retórica. Do contrário; são as necessidades das pessoas que geram bens e serviços. Da mesma forma, ocorre com a arte. Um artista que recebe pouco, por mais talentosos que seja, não atende as necessidades dos apreciadores de seu trabalho. Enquanto isto, o trabalho do matemático que recebe mais que ele, é mais valorizado pela sociedade. Deveríamos impor gostos as pessoas, deixem de valorizar Gauss ou Picasso por alguém que não admirem?!

A sétima alegação é quando a necessidade que as empresas tem em crescer. Ele cita: “As empresas querem crescimento todo ano. Você já viu uma empresa estabelecer a meta de reduzir 15% do faturamento?” E porque o homem desejaria retroceder?! É o crescimento das empresas que gera empregos, faz salários subirem, produzem bens e serviços de qualidade a um menor preço. Portanto são responsáveis direitos pela qualidade de vida. Está claro que o auto nunca teve aula de microeconomia (embora só saiba citar macro). Já o útil argumento diz que não vivemos em equilíbrio. Segundo ele, estamos sempre atarefados sem meios de nos dedicar a questões subjetivas, aos esportes a uma alimentação saudável. Todavia não é isto que os dados indicam. Segundo a OMS as populações mais felizes estão entre as mais capitalistas: Japão, Espanha, Andorra e Austrália. O mesmo quando a qualidade de vida, segundo a OCDE; Austrália, Noruega, Suécia e Dinamarca. Concluo que o autor O autor não entende nada de economia, possui argumentos puramente emocionais e sem dado empírico para respaldá-lo. É lamentável que artigos assim sejam tão propagados.

Fonte do artigo: https://medium.com/@gutanaka/hora-de-aceitar-que-o-capitalismo-n%C3%A3o-deu-certo-ce0ab6125049

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Christiano Di Paulla

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