Há um texto circulando na internet (do site Raiz da Questão), que alega que a escola austríaca não tenha de fato, refutado as teorias de Marx. Após uma pequena detalhada, encontrei uma série de equívocos que me levaram a escrever esta réplica. De início, o autor cita Lenin, alegando que não pode ser feita uma revolução (marxista) sem ideologia e que este é o motivos para o socialismo perder espaço para o pensamento capitalista. Eis uma grande ilusão. Embora o peso ideológico seja uma premissa atenuante para as massas – que no geral são desprovidas de grande conhecimento acadêmico – é diante as evidencias, ignoradas pelos marxistas, que emerge seu fracasso. A mais simples comparação entre economias capitalistas e socialistas é capaz de arrasar com qualquer argumento “revolucionário”. Não é preciso ser expert em economia para notar a gritante diferença socioeconômica entre os dois lados da Alemanha dividida, Coreia do Norte e Coreia do Sul, China e Singapura etc. O socialismo (como um todo) foi refutado pela realidade.

O argumento do autor

O autor inicia o texto descrevendo o materialismo dialético, segundo o qual a existência seria regida pela matéria e suas interações, existindo o natural (terra) e o artificial (plantações). Há também o concreto (tomates) e o abstrato (sabor do tomate). Assim o homem transforma a natureza concreta em artificial em face a abstração. Nestes aspectos, Marx insere sua dialética e divide a sociedade em dois grupos: O primeiro é a infraestrutura, representada pela base concreta da economia. O segundo é a superestrutura representada pela base ideológica da sociedade; governo, cultura e religião. Estas forças exerceriam poder uma sobre a outra, modelando a sociedade. Na teoria de Marx, também há o valor-de-uso e valor-de-troca. O valor-de-uso seria a água para beber, o celular para se comunicar e o carro para se locomover. O valor-de-troca seria derivado do tempo socialmente necessário para esta produção, obtido através de outro bem, cujo tempo socialmente necessário lhe é referente. Todavia, como a sociedade compartilha de valores estéticos, este valor é distorcido.

Aquilo que distorceria o valor-de-troca, seria o chamado “fetichismo”, que por sua vez seria oriundo de uma pressão da superestrutura sobre a infraestrutura. Funciona da seguinte forma: caso uma água estiver engarrafada com um rotulo bonito e gelada, ela poderá ter um valor-de-troca maior subvertendo a característica substancial do objeto. A água não serve mais apenas para matar a sede, e começa a corresponder um estímulo externo desnecessário. Esta seria a base da produção capitalista; a produção de necessidades. Um exemplo usado é o da comunicação. Segundo o autor, não havia necessidade do celular até ele ser inventado. As pessoas se comunicavam muito bem sem ele. Como estas necessidades são criadas?! Ele cita James Buchanan Duke, que inventou uma máquina capaz de produzir 120 mil cigarros por dia. James apenas teria vendido seus cigarros, graças a publicidade que fez via corrida de cavalos e concursos de beleza. Assim o cigarro foi associado a elegância e ao poder atribuindo um valor que não possui, além do valor de uso; sua reação no organismo.

Pelas vias descritas acima, a teoria marxista do valor do trabalho, assume que o consumo não é determinado pelo indivíduo, mas condicionado pela ideologia da classe dominante. Assim, Marx não desconsideraria a subjetividade no consumo, concebendo-a alheia ao trabalhador. O autor deixa de citar a mais-valia, que seria a diferença entre o salário pago ao trabalhador e o valor do trabalho. A mais-valia absoluta e a mais-valia relativa. Em exemplo, a mais-valia absoluta ocorreria quando o salário é referente ao que é produzido em metade da jornada de trabalho. A mais-valia relativa seria oriunda da melhoria tecnológica, o que amplia a produção e o lucro em relação ao trabalho. Através desta exploração, haveria uma luta de classes que culminaria numa revolução marxista que resolveria todas as “contradições da sociedade capitalista”, eliminando a propriedade privada e as classes sociais. Ela seria manifestada pela necessidade dos trabalhadores, mas regida por um partido comunista que faria todo o processo de transição.

Réplica ao texto

Em A Teoria da História, Mises demonstra a fragilidade dos conceitos marxistas de infraestrutura e superestrutura, no qual uma suposta elite dominante imprimiria bases ideológicas a toda sociedade, transformando o homem num refém daquilo que é produzido. Mises, cita: Os homens usam armas de fogo”. Para aprimorá-las, desenvolveu-se a balística. Mas é claro que, precisamente porque desejavam uma maior eficácia, fosse para caçar animais, fosse para se matarem uns aos outros, procuraram desenvolver uma teoria balística correta. De nada serviria uma balística meramente ideológica”. São as bases da sociedade que transformam as ferramentas e o meio em prol de seu bem-estar e não o contrário. Métodos produtivos se aprimoram por noções técnicas, como no caso do desenvolvimento de um novo método de cálculo. Ideologias não são vetores de novos processos em engenharia, arquitetura ou agricultura. Nem mesmo a URSS obteve grandes sucessos neste sentido.

Ao contrário do que diz o texto, foi a necessidade de se locomover em grandes jornadas que deu origem a charrete e não sua invenção e propagação no mercado, que dera início a esta necessidade. A necessidade e melhorar a comunicação desenvolveu celulares, o habito de degustar tabaco levou a produção de cigarros e assim por diante. A dialética materialista de Marx perverteu a ordem e o motivo das ações humanas, colocando o homem como um mero fantoche de forças que desconhece e não controla. Seu fetichismo é uma distorção do valor subjetivo. Caso estivesse correto prejuízos e falências seriam incomuns. Temos vários exemplos de produtos sem saída, mesmo com imensa publicidade, exemplo: New Coke, Ford Edsel, Arch Deluxe do McDonalds, Ok Soda e o Ken moderno (barbie.) Só na gigante da tecnologia, a Apple encontramos diversos exemplos, como o iPod Hi-Fi, Apple III, Apple Bandai Pippin (videogame), Apple Newton (PDA) etc. Oferta não gera demanda, mas toda demanda gera oferta.

Ao longo da história da economia capitalista, milhares de bens e empresas falharam, mesmo com valor-de-uso, valor-de-troca e com ampla publicidade, porque simplesmente não agradaram as perspectivas subjetivas dos consumidores – ou seja, de baixo para cima. Como bem cita Mises, a ação humana é um ato que visa atingir objetivos determinados a fins de se encontrar um estado de satisfação temporária. Neste sentido, o trabalhador preza o suor de seu trabalho. No geral, ele buscará a melhor relação em custo/benefício. Uma vez que se encontre frustrado com determinado bem ou serviço, seja pelo contato direto no momento da compra, seja pela verificação através de terceiros, ele assumirá uma postura defensiva e não o consumirá. Esta abstenção produz a queda da demanda e a redução do lucro, podendo implicar em falência. É por estes motivos, que os empreendedores pesquisam a respeito das preferências dos consumidores, competindo uns com os outros a fins de aperfeiçoar seus produtos e lançar bens e serviços cada vez melhores.

O autor focou-se somente em sua crítica a teoria subjetiva e de utilidade marginal da escola austríaca, ignorando que a principal base de sua refutação é no que cerne a impossibilidade de um sistema socialista. O marxismo prega uma sociedade sem propriedade privada o que elimina a existência de trocas voluntárias através de um sistema de preços. Sem os preços, não há meio contábil de acentuar oferta à demanda, além de identificar os fatores de produção mais eficientes. Além disto, a revolução marxista visa a destruição de toda a propriedade privada através de uma revolução violenta, pois entende que raros seriam aqueles que adeririam a ela – ao contrário do que sua perspectiva filosófica (marqueteira) alegava. Para destituir toda sociedade, dos mais pobres aos mais ricos, somente através da centralização do poder. Associando isto, aos problemas econômicos causados, teremos imensa revolta popular, o que culmina no uso continuo do poder, levando a ascensão de um regime ditatorial. Todas as evidências históricas revelam que o socialismo foi da violência à escassez ciclicamente.

Outras falácias encontradas no texto: 

1º – Os economistas austríacos veriam as relações econômicas como abstrações. Não é verdade. A praxeologia indica que as relações econômicas possuem fins materiais bem definidos, embora coloque subjetividade a priori. Ações racionalmente definidas não são meras abstrações.

2º – Um buraco não será vendido porque tem trabalho, mas não tem utilidade, enquanto o ar tem utilidade, mas não tem trabalho. Assim eles não são mercadorias. Não é verdade. Um buraco pode ter utilidade, como a construção duma piscina. Mas se não houver demanda, não terá valor. O ar não possui valor porque não tem demanda já que é abundante e indelineável.

3º – Supostamente, somente os bens produzidos em massa são mercadorias. Assim um quadro de Picasso não seria mercadoria. Não é verdade. Tudo o que pode ser trocado em valores monetários é uma mercadoria. O autor visa ignorar que o preço é elevado em função de ser um recurso raro, tal como pela valorização subjetiva de seus admiradores.

4º – A terra só teria valor, porque pode ser usada para produzir bens, como alimentos ou simplesmente porque haveria custo em sua descoberta. Não é verdade. A terra pode servir como um meio de poupança, onde determinado capital é empregado para que no futuro, ela seja revendida a preços maiores. Trabalho e utilidade não serão relevados até então.

5º – O autor tenta sobrepor o paradoxo da água e do diamante através da teoria marxista do valor do trabalho, alegando que o diamante tem valor maior que a água porque nele é empregue um trabalho maior para ser descoberto e lapidado, além de imensa publicidade. Todavia, qualquer pedra preciosa terá um valor mais elevado que a água, mesmo que não lapidadas numa relojoaria, tal como a água de um lago tem valor zero.

6º – Em vários trechos do texto, notamos a persistência em considerar válida a teoria do valor do trabalho de Marx, ignorando que se uma empresa X gasta Y de horas produzindo um bem Z e ele não é vendido. Não importa a quantidade de mão de obra empregue, ele não terá valor, seja de uso ou de troca.

7º – Alega-se que as pessoas não consomem as mesmas coisas, relevando certa subjetividade, mesmo que supostamente condicionadas. Isto é contraditório. Se há relativismo indelineável a um suposto condicionamento, não há como provar que ele existe. Este argumento visa anular as escolhas subjetivas.

8º – O texto afirma que as empresas fazem pesquisa de mercado, não em face as preferências subjetivas, mas porque os condicionamentos dificilmente mudarão. Todavia empresas tradicionais que criam produtos similares ou até mesmo aquelas que são totalmente inovadoras são capazes de lucrar ou falir.

9º – Os empresários falhariam porque “criar valor social” de um produto num estágio avançado da economia é muito difícil. Não é verdade. Empresários falham, porque suas estimativas futuras ou o emprego dos fatores de produção são equivocadas, em face a dispersão do conhecimento. como bem cita Hayek.

Conclusão:

O texto do autor, assim como a teoria marxista, considera o homem como um animal sem autonomia, condicionado as forças materiais que vos cercam, além de incapaz de se projetar na sociedade; não é um indivíduo, mas um mero produto do meio. A neurociência jamais atestou isto. No máximo, temos reflexos involuntários e condutas que são produto da evolução biológica, mas persistimos aprendendo e evoluindo com nossas ações. A teoria coletivista do marxismo é antinatural porque visa reformar o homem, nega sua natureza e se opõe a todo o desenvolvimento histórico. A teoria da mais-valia e da luta de classes de tão inconsistentes, nem foram dissertadas. A impossibilidade de cálculo econômico, a escassez consequente, a opressão revolucionária e concentração do poder nas mãos dos dirigentes também fora ignoradas. E assim, será! Dirão que suas experiências não foram válidas e tentaram novamente impor o inferno na terra, ignorando o imenso fracasso do socialismo como modelo. O que lhes restá é uma fantasia ideológica barata.

Texto em original: http://raizdaquestao.com.br/?p=495

Referências: 

  •  Teoria da História – Ludwig Von Mises
  • O Cálculo Econômico sob o Socialismo – Ludwig von Mises
  • A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo – Eugen von Böhm-Bawerk
  • Teoria do Socialismo e do Capitalismo – Hans Hermman Hope

Uma das provas de que Mises refutou Marx foi a tentativa frustrada de Oskar Lange tentar organizar a economia soviética através de preços artificiais obtidos no mercado exterior. Os russos entenderam a necessidade de preços, mas ignoraram a necessidade do mercado

Christiano Di Paulla

comentários
  1. Homem de Bem disse:

    A avaliação do capitalismo no seculo XIX não se enquadra mais nos dias atuais. Não entendo porque tanta insistência em usar argumentos que já são refutados simplesmente pela origem de não poder prever os rumos do capitalismo na época em que viveu, pregando que aconteceria algo totalmente diferente do que aconteceu na realidade. Por outro lado, suas teorias de igualitariedade forçada somente deram argumentos a tiranos pra chegarem ao poder tirarem a liberdade da população, os transformando em novos vassalos de seu sistema político.

  2. Jordano Sabino disse:

    Muito bom!Só uma pergunta,qual é a ideologia que vc defende?Eu sou um conservador no âmbito moral e sou liberal no âmbito econômico

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