Marxismo cultural 2 – A nova consciência de classe

Publicado: dezembro 31, 2013 em Marxismo

Os marxistas ocidentais passaram a trabalhar sobre o que Marx definia como “consciência de classe”. Para Marx, o indíviduo age de forma prestativa e organizada para com os membros de sua classe em prol de interesses coletivos – o que se reflete na organização das ações político-sociais. Esta consciência estaria intimamente ligada à divisão social dos métodos de produção. A superestrutura (instituições) seria responsável pela produção de ideais, enquanto a estrutura seria o receptáculo. Para Marx, as ideais dominantes, seriam as ideias da classe dominante, visto que dispõe dos meios de produção material que se refletem na produção intelectual. Entretanto, os dominados desenvolvem estratégias de resistências, o que gera a consciência do proletariado. Logo a consciência de classe é marcada pela luta de classes. György Lukács expande estes conceitos citando que a ideologia burguesa não é factível. A real ciência seria o pensamento da “totalidade concentra” através do que é descrito pelo período histórico. As chamadas “leis” eternas da economia são desmitificadas como uma ilusão ideológica projetada para a supressão desta totalidade.

Em Historia da Consciência de Classe, Lukács trabalha com a ausência de conceituação de classe na obra de Marx no qual a consciência de classe é somente definida pelos métodos de produção. Lukács considera que em cada classe social há uma consciência equivalente. Esta consciência equivalente não consiste em um entendimento com os interesses individuais dos membros, nem tão pouco com a soma destes interesses: é somente seu sentido histórico. Apenas a história é capaz de permitir que uma consciência seja interprestada dentro de sua classe. Dissertando sobre a burguesia e o proletariado, Lukács sugere que a classe dominante apesar de teoricamente possuir o poder para entender a totalidade da sociedade, tem sua compreensão limitada pelos seus interesses exploradores, fadada a uma falsa consciência. Já o proletariado possui o potencial pleno para a consciência da totalidade, uma vez que detém interesse na destruição do modo de produção capitalista. Eles somente precisariam compreender que são controlados: algo que ocorreria em função das crises do capitalismo. Assim o proletariado encontraria sua consciência: supostamente descrita de antemão pelos teóricos marxistas.

Na vanguarda do pensamento de Lukacs encontramos Antônio Gramsci – fundador do Partido Comunista Italiano. Gramsci se denominava antifascista, pois o fascismo se opunha a disseminação do comunismo na Itália. Em seus planos havia o forte intento de uma aliança entre comunistas russos e italianos, mas em 1926 fora preso pela polícia italiana, sendo levado ao cárcere onde permaneceria até ser liberado, próximo de sua morte em 1937. Na cadeia, Gramsci tivera bastante tempo para idealizar o marxismo cultural. Entre as teorias de Gramsci estava o conceito de hegemonia, inicialmente desenvolvido por Lenin designando a liderança política sobre as classes operárias. Gramsci expandiu este conceito de uma forma estratégica. Para Gramsci a hegemonia consiste na criação de uma mentalidade uniforme em torno de várias questões, fazendo com que as massas passem a acreditar que as ideias impregnadas pelos doutrinadores sejam as soluções. Estas ideias surgem do intelectual coletivo (Partido) que as dissemina pelos intelectuais orgânicos (formadores de opinião) representando a mídia, professores, jornalistas e o mercado edital.

Gramsci sintetizou o conceito de hegemonia ao pensamento de Lukacs referente à consciência de classe. Ele percebera que o trabalhador ocidental não seguia os preceitos estipulados por Marx, mas do contrário: o sistema fora cada vez mais aceito pelos trabalhadores, o que seria devido a uma homogenia cultural burguesa. Gramsci alegava que o poder das classes burguesas dominantes sobre o proletariado dentro do modo de produção capitalista, não resiste somente no controle capital ou através de sua coligação com o Estado, mas em uma dominação cultural através da educação, religião e meios de comunicação – o que inibiria a “consciência revolucionaria”. Caso o poder da burguesia estivesse meramente fundamentado no domínio dos meios de produção seria fácil destruir o sistema capitalista, pois bastaria uma revolução armada, desapropriando-os. Gramsci alegara que os marxistas devem deturpar os valores tidos como burgueses, criando sua própria hegemonia cultural a fins de vigorar o sistema comunista sem grande resistência.

Na teoria de Gramsci a ação política exercida pela teoria marxista em oposição às culturas dominantes faz-se o único meio de elevar as classes subalterna a uma “consciência superior sobre a vida”. Entretanto, o proletariado no geral, não possui a mínima consciência do papel que pode exercer nem de sua “condição subordinada”. O proletariado trabalha de modo prático, possuindo apenas uma consciência herdada pela burguesia – o que vos distanciaria da autocritica. Portanto, o pensamento marxista, pautado em uma luta de hegemonias políticas de direções conflituosas, partido do campo intelectual ao campo material seria a única forma de lhes revelar seu verdadeiro poder. A formação do trabalhador através do pensamento marxista seria a força capaz de construir uma consciência política efetiva a fins de tornar o proletariado uma classe hegemônica e autoconsciente. Para tanto, Gramsci alega que se faz necessária à criação de uma elite intelectual, especializada na elaboração conceitual e filosofia a fins de educar os trabalhadores a respeito da “própria consciência proletária”.

Gramsci não se limitava à visão ortodoxa de uma revolução direcionada somente a classe operária.  Sua teoria denomina como “classe subalterna” o subproletariado, o proletariado urbano, rural e até mesmo a pequena burguesia. Entretanto, Gramsci percebe que estes grupos divergem, estando unidos em tese somente como Estado. Ele se depõe em examinar como estas classes sociais poderiam se unir a fins de destronar a hegemonia dominante e chega à conclusão de que pode haver uma crise na hegemonia dominante, culminando na exaltação da revolução cultural. A crise da hegemonia dominante faz-se possível quando as classes sociais dominadoras tornam-se incapazes de resolver os problemas da coletividade ou de impor sua própria concepção do mundo. Assim, a classe subalterna emerge gerando soluções para estes problemas, tornando-se dirigente e expandindo-se até que seja criado um novo bloco hegemônico. Naturalmente estas soluções seriam diligenciadas pelos intelectuais marxistas formadores de opinião.

Gramsci também entendia que não havia um conceito hegemônico sobre todas as classes. Para que os burgueses pudessem alcançar este patamar, necessitavam fazer concessões aos trabalhadores sacrificando seus imediatos interesses materiais. Gramsci também alega que o Estado não é um instrumento puro da classe dominante, como definiam os marxistas mais ortodoxos, mas uma força revestida de consenso, ou seja: um poder tomado pela hegemonia. Na sociedade ocidental Gramsci a define em duas instancias: sociedade política + sociedade civil. O segredo para a revolução marxista estaria em levar a sociedade civil a absorve a sociedade política em prol do ideário comunista, algo que não havia ocorrido no sistema stalinista. Deste modo, Gramsci ataca o stalinismo, alegando que neste tipo de socialismo, seu fracasso ocorrera opressão militar, fruto da hipertrofia do Estado – caracterizando uma ditadura sem hegemonia. Para Gramsci, a hegemonia deveria vir acompanhada de uma forma mais sutil de revolução que a simples coerção armada. Estes seriam os novos rumos à derradeira ditadura do proletariado.

Referências: 

A ideologia alemã – Marx e Engels

História e Consciência – György Lukács

História da Consciência de Classe – György Lukács

Obras Escolhidas – Antônio Gramsci

Cadernos do Cárcere – Antonio Gramsci

dawawwLukcas e Gramsci: patronos do marxismo cultural e da manipulação comunista das massas.

Christiano Di Paulla

Continuação: https://resistenciaantisocialismo.wordpress.com/2014/02/01/marxismo-cultural-3-refutacao-a-gyorgy-lukacs/

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