Anarquismo e propriedade privada

Publicado: dezembro 20, 2013 em Anarquismo

Como dito anteriormente, o anarquismo moderno, inimigo da propriedade privada é apenas uma expressão velada do comunismo. Embora teóricos anarquistas como Bakunin e Proudhon tivessem grande revanchismo com Marx e Engels, o cerne da rivalidade estava apenas no método. Em teoria, o anarquismo moderno e o comunismo são contra o Estado, mas na prática, levam irredutivelmente a sua centralização, devido a problemas de natureza sistêmica, seja relativo ao período de transição entre sistemas ou por suas debilidades econômicas. Uma característica clara desde os teóricos no decorrer do tempo, faz-se da negação deste fato. Quando citada a contradição de grupos como anarquistas como Black Block que exigem uma prestação de serviços estatais ampla sobre o transporte, saúde e educação de forma violenta e coerciva, logo surgem intelectuais anarquistas se posicionam alegando que esta vertente não vos representa. Isto poderia ser aceito por parte de anarcocapitalistas, anarquistas individualistas e defensores do anarco-pacifismo, mas estes são um espécime muito raro e expurgado de anarquistas.

Ao contrário das vertentes “anarquistas” que defendem a liberdade individual e a propriedade privada e o livre mercado – conceitos que surgiram no taoísmo chinês – os anarquistas modernos são no geral, severos opositores destes conceitos. E diferentemente dos anarco-coletivistas que aceitam uma vida reclusa em pequenas comunidades cooperativas e sem propriedade, a quase totalidade dos anarquistas baseados nos preceitos clássicos, vivem em centros urbanos e adotam uma postura bem similar a de grupos como Black Bloc. Suas táticas incluem tumultos, luta de rua, depredação de patrimônio público e privado, invasões e saques a lojas – algo extremamente similar ao esquerdismo radical. Estas manifestações são contrárias ao conceito de anarquia, que não sugere violência caos, mas simplesmente a inexistência de uma liderança coerciva. Diferentemente do que supõem os anarquistas modernos, a ausência de um governo não sugere a inexistência de propriedade privada, nem tão pouco de trocas voluntárias de mercado. Ao confundir estas concepções, os anarquistas modernos cometem um erro que vos direciona rumo ao comunismo.

Para tanto, devemos memorar o real significado do termo: anarquismo. Etimologicamente, anarquismo vem do grego anarkhos (ἀναρχος), que significa “sem governantes” ou “sem poder”. Pode-se também definir como sem soberania, reino ou magistratura. O anarquismo é uma filosofia politica que visa a eliminação de todas as formas de governo compulsório e de Estado. Anarquistas são contra uma ordem hierárquica que não seja livremente aceita. Eles acreditam na organização libertária pautada na livre associação. Portanto, a existência de instituições financeiras de cunho privado, não ferem nenhuma premissa anarquista, do contrário: apenas vos enaltecem. Em outras palavras: ninguém é forçado a usar determinada moeda privada, podendo praticar o escambo. Do mesmo modo, não é obrigado a aceitar determinado emprego e seus rendimentos, podendo optar por viver de forma simples em uma comunidade coletivista. Uma vez que seja aceito um emprego, tendo em mente suas obrigações e rendimentos, será de forma voluntária, na aceitação a hierarquia conhecida de antemão.

E uma vez que o anarquismo roga a liberdade, não pode alcançá-la sem propriedade privada, uma vez que a primeira propriedade é do individuo sobre o próprio corpo. Qualquer objeção a esta norma, contém em si, uma contradição, visto que emerge do uso deliberado de ideias privadas. Argumentar contra a propriedade privada dizendo-se defender a liberdade é autocontraditório. Neste ponto, anarquistas modernos alegam que embora possa existir esta propriedade, não deve haver propriedade sobre nenhum outro objeto senão o corpo. Eles ignoraram um principio básico: objetos surgem como extensões de nós mesmos. Neste sentido, porque um artista que exprime sua alma em uma pintura, não teria propriedade sobre a tela? Embora, outro artista de técnica semelhante ou superior possa reproduzir este trabalho de forma melhorada, terá propriedade sobre esta nova obra e apreços subjetivos distintos do autor sobre a obra original. Em exemplo, o criador da primeira roda ou o primeiro a dominar o fogo não poderia nem teriam meios de reivindicar o uso exclusivo destes engenhos e técnicas, mas poderá fazer sobre aquilo que fora lapidado por ele.

Partindo destas premissas, não há meios de reter a propriedade de ideias, assim como é indevida a apropriação de algo lapidado por outro indivíduo, sem sua autorização. Tal posse não autorizada somente ocorre através da força. Definimos estas ações como furto ou roubo. Portanto, anarquistas, socialistas e comunistas que negam a legitimidade da propriedade privada e consideram que algo lapidado por outros deve ser tomado pelo viés da força, apenas defendem uma ação coerciva e criminosa. Em sua defensa, alguns anarquistas alegam que o homem chegaria a um patamar no qual se “desprenderia destes bens” – o que ignora a natureza individualista do ser humano. Assim, pelo apreço subjetivo por determinados objetos materiais, dificilmente todos doariam tudo. Entretanto nada impede que o pintor doe sua melhor obra a um sujeito ou grupo o que levanta outra objeção irredutível para a existência da propriedade privada: os bens são escassos. Para descrever estas perspectivas o filosofo, cientista político e economista  Hans-Hermann Hoppe fora exímio através de sua fábula de Crusoé.

A primeira colocação de Hoppe é que bens existem de forma limitada. Quando um náufrago encontra-se sozinho em uma ilha todos os bens nesta região lhe pertencem. Ele poderá desfrutar de todos sem nenhuma objeção. Para ele, uma parte da ilha é de grande valia, pois lhe propicia boa pesca e assim a habita. Agora, suponhamos que um ou vários indivíduos sejam acrescidos neste ambiente e também desejando o domínio desta mesma região. Como esta região é um bem escasso, ele poderá se tornar proprietário daquela região, pelo fato do descobrimento, que contém na posteriori, seu esforço trabalhista. Neste sentido, uma vez que todos os bens escassos tenham sido apropriados, há propriedade privada não somente estabelece limites entre a posse indevida, como também roga o princípio de não agressão: o homem é livre para fazer com seu corpo e bens por ele adquiridos por posse original ou por troca, o que bem desejar desde que não interfira no corpo ou propriedade alheia.  Logo a propriedade privada, resolve conflitos sociais referentes à posse de bens escassos e implica na ideia de que o homem deve se empenhar mais ao lapidar recursos limitados – fato que levara-nos ao imenso progresso científico e tecnológico.

Referência:

Anarquia –  Dicionario Merriam-Webster

Uma teoria sobre o capitalismo e o socialismo – Hans-Hermann Hoppe

Princípios e Ética da propriedade privada – Hans-Hermann Hoppe

gal.flakeset1014.jfSozinho em uma ilha tudo lhe pertence, cada canto. Quando mais indivíduos chegam, seu trabalho sobre original lhe da posse. Quando todas as partes forem apropriadas, resta a troca. O uso da força para burlar este conceito, fere o princípio de não agressão, portanto resulta em um crime.

Christiano Di Paulla

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