Problema de cálculo econômico – Parte 2

Publicado: novembro 17, 2013 em Marxismo

A publicação deste brilhante trabalho de Mises gerara uma discussão intensa entre as décadas de 1920 e 1930. Mises demonstrara que em uma economia complexa e dinâmica, os preços são instrumentos essenciais e irredutíveis de seu funcionamento. Os intelectuais defensores do socialismo radical passaram a compreender e aceitar que a moeda não era um fetichismo burguês e explorador e perceberam a dimensão da utopia marxista. Todavia, não se contiveram e na intenção de refutar Mises, surgira à teoria conhecida como “solução de Lange-Lerner-Taylor”. Eles alegavam em contraste com as previas explicações de Mises, que o problema de cálculo econômico nas economias socialistas seria possível se os vários gerentes neste sistema pudessem fixar preços a fins de gerar contabilidade. Segundo Taylor, este processo seria supostamente semelhante ao processo capitalista: fixando preços até encontrar um equilibro através da tentativa, erro e então; acerto.

Segundo esta teoria, este processo se daria de forma simples: caso os preços fixados sejam elevados, haverá excedente nas prateleiras, o que indicará aos planejadores centrais, a necessidade de reduzir os preços. Caso estejam baixos demais, haverá escassez nas prateleiras, levando a necessidade de elevá-los. Até mesmo defensores do livre mercado como Joseph Schumpeter e Frank Knight deram crédito a estas teorias, uma vez influenciados pela teoria de equilíbrio geral de Walras, onde a economia estaria sempre equilibrada de forma estática, em um universo onde todos os dados, como escalas de valor, tecnologias e recursos seriam conhecidas o que levaria os preços a se acentuarem aos custos conhecidos. Neste universo ficcional haveria uma competição perfeita devido à indicação precisa dos preços. Tais considerações rumavam na direção do pensamento socialista, onde planejadores centrais poderiam criar tal equilibro – algo que não ocorre na irregular competição capitalista.

Assim, os socialistas consideraram que Mises, acabara por contribuir de forma inestimável para com o socialismo: apontando uma falha, para que então fosse corrigida e o modelo melhorado, mesmo com equívocos óbvios. Neste socialismo de mercado, baseado em preços artificiais fixados pelo monopólio governamental sobre todos os setores, não há nenhum tipo de livre concorrência. Logo, como seria “perfeita” se nem ao menos existe? Além disto, não existe equilíbrio geral no mudo real, visto que não há perfeição no que concernem seres humanos e suas ações, seja em um empreendimento privado ou em um ajuste governamental. A economia consiste num constante e incansável processo de aprendizagem, sem que exista um conhecimento absoluto dos meios. Por tais vias, os empreendedores especulam resultados, baseando-se em suas considerações a fins de obter lucros e evitar perdas.

O erro fatal da suposta solução de Lange-Lerner-Taylor é ignorar que a teoria de Mises não aborda somente os preços de bens de consumo, mas sua base: a propriedade privada desde a terra ao capital. Com o uso destas propriedades, os investidores são capazes de decidir como efetuar a produção e posicionar os estoques. Logo o modelo socialista descarta toda a dinâmica do processo produtivo, partido do ponto final. Como o modelo “socialista de mercado” poderia trabalhar a escassez de determinada mão de obra ou matéria prima? Na escassez por mão de obra, o empregador simplesmente eleva os salários, atraindo trabalhadores. Na escassez de determinada matéria prima, seu valor inflacionará, o que levará a procura de um novo viés. Do contrário haverá queda destes valores alocando pessoas e recursos para outros setores até que haja uma situação favorável a todos – o que sugere maior eficiência.

Nas suposta solução para o problema de cálculo econômico, não somente os diversos estágios do processo produtivo são obliterados, mas também o decisivo papel do empreendedor. No sistema socialista, o gestor exerce apenas uma função subsidiária, sem que lhe seja possível realizar as tomadas de decisão. Não há espaço para a especulação periférica de determinada indústria ou setor para que haja o amadurecimento de suas ideias. Há uma confusão em sistema de gestão e sistema empresarial baseado na necessidade de manter os lucros elevados, sem a perda da produtividade, uma vez que ambas dependem da capacidade de satisfazer as necessidades dos consumidores. No sistema socialista não há liberdade para tentar maximizar ganhos e evitar perdas, e uma vez que haja uma perda, ela será generalizada ao invés do caso isolado de empreendedores. Quando o Estado socialista erra, todos saem perdendo. Há neste caso, a coletivização dos prejuízos.

Há de se destacar um ponto fundamental no debate: os equívocos de Friedrich Hayek, na tentativa de expandir a teoria de Mises. Para ele o problema de cálculo econômico ocorria visto que os preços simbolizavam informações necessárias para a decisão racional. Assim um planejador central jamais teria acesso à demasiada gama de informações a respeito de todos os agentes econômicos. Como bem cita Salermo, esta é uma visão equivocada, uma vez que os preços indicam apenas informações de um passado recente em referência as valorizações de consumo, tecnologias, materiais etc. Na verdade, os empresários se interessam em comprometer seus recursos na produção e na venda pelos preços futuros. Nesta tomada de decisões, os próprios empresários não tem ideia das reais informações a respeito dos anseios de seus consumidores nem dos melhores métodos produtivos. Eles especulam. O problema não está na informação, mas no cálculo.

Conclusão:

Os modelos econométricos desenvolvidos pelos economistas socialistas nunca, nem jamais serão suficientes para resolver o problema de cálculo econômico, mesmo através de equações computacionais. Mesmo se fossem criadas milhões de equações, quadros estatísticos e feitas avaliações e cálculos individuais, no momento em que tais equações fossem resolvidas, suas informações já seriam obsoletas devido a constante mudança das precificações subjetivas. Mesmo que fossem implantados microchips no cérebro de toda população (como sugere a ficção científica) os processos produtivos que demandam de tempo, não coincidiriam com as mudanças nas decisões individuais. E mesmo que tudo isto fosse possível, ainda restaria o problema de cálculo referente aos fatores de produção.  Mesmo que o Estado tente fixar preços, como ocorrera na URSS, eles não demonstram precificações reais, o que leva aos imensos desperdícios de recursos e a inevitável escassez.

Referências:

Ludwig Von Mises – Problema de cálculo econômico sobre o socialismo

Ludwig Von Mises – Ação Humana

Oskar Lange – Sobre a teoria econômica do socialismo

Oskar Lange – O Papel do Planejamento na Economia Socialista

Oskar Lange – O computador e o Mercado

Friedrich Hayek – O uso do conhecimento na sociedade

Murray N. Rothbard – Breaking Out ​​of the Box Walrasian

Salermo – Mises como racionalista social

Israel M. Kirzner – O debate cálculo econômico : Lições para os austríacos

portadaShangai é um exemplo dos novos rumos tomados por nações que perceberam o imenso fracasso do socialismo devido ao problema de cálculo econômico. É uma área de livre mercado criado pelo governo chines que provavelmente influenciará toda a nação.

Christiano Di Paulla

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comentários
  1. […] Continuação: https://resistenciaantisocialismo.wordpress.com/2013/11/17/problema-de-calculo-economico-parte-2/ […]

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