Problema de cálculo econômico – Parte 1

Publicado: novembro 14, 2013 em Marxismo

A escola austríaca de economia fora eximia em diversas constatações e principalmente em suas refutações a várias teorias clássicas, neoclássicas e marxistas. Mas sem duvida, uma de suas maiores contribuições para a economia fora a refutação definitiva ao planejamento central. Em um artigo publicado em 1920, Ludwig Von Mises demonstrou que o sistema socialista estava destinado a irredutível fracasso. Em menos de um século depois, o colapso do sistema socialista e em principal, a dissolução da URSS foram capazes de evidenciar tal destino. O coletivismo político e econômico demonstrou-se o maior malefício e maior fracasso teórico de toda historia da humanidade. Seu experimento resultou no surgimento de ditaduras genocidas, perda de milhões de vidas seja pela guerra ou pela fome, destruição de economias inteiras, além de severos desastres ecológicos. Embora isto seja provado na teoria e na prática, ainda existem aqueles que por meio de uma cegueira ideológica e negação de fatos históricos professem o contrário.

A base para as teóricas econômicas planificadas faz-se da defesa de uma gestão centralizada, onde não haveria propriedade privada e todos receberiam em igualdade, baseando-se em suas necessidades (supostamente homogêneas) a partir de uma visão materialista, onde a economia se basearia nos recursos, tempo de trabalho e produção ao invés de movidas pelo capital. Neste sentido, a primeira objeção que surge se refere aos incentivos. Desde modo, quem planejaria e quem obedeceria? Quem determinaria o padrão de remuneração? E uma vez que todos os valores sejam iguais, o físico nuclear teria o mesmo incentivo que um lixeiro para trabalhar em seu setor? As respostas dos defensores do planejamento central são surreais e negam a natureza humana. Para eles, cada um estaria satisfeito com sua contribuição, abandonariam o desejo de posse e receberiam com relação a suas necessidades básicas, como vestuário e alimentação. O físico nuclear trabalharia neste ofício por que tem prazer, tal como ocorreria com o lixeiro.

As alegações que defendem algum incentivo nestas sociedades igualitárias são escabrosas. Em primeiro, porque cada indivíduo é distinto, seja em seus gostos ou aptidões assim possuindo uma noção distinta de valor – o que regra sua necessidade. Neste sentido não há quem possa senão por meio da força ou da imoralidade ditar o que é necessário para o outro. Todas as inclinações neste sentido destroem a liberdade para o acerto ou para o erro, colocando todo o peso destas responsabilidades sobre o controle de engenheiro social. Tais distinções não são apenas psicológicas, mas também físicas. Suponhamos uma pessoa cujo metabolismo rápido a leva a uma necessidade biológica de ingerir mais alimentos que seu vizinho. Caso todos recebam em pé de igualdade, esta pessoa seria gravemente lesada. Agora suponhamos uma situação onde indivíduos com o mesmo metabolismo, possuem gostos diferentes. Um possui aversão a maçãs enquanto o outro a carne vermelha. Em uma distribuição igualitária, como haveria a disposição de bens exigidos ou negados?

Outro argumento infundado é a noção de que todos os ofícios seriam preenchidos, uma vez que as pessoas supostamente atuariam somente naquilo que lhe proporciona prazer. Obviamente existam inumeráveis ofícios cuja oferta de mão de obra baseada em alguma satisfação seja mínima ou inexistente. Por exemplo: quem se disponibilizaria limpar privadas em um banheiro de hospital ou fezes de animais em zoológicos ou circos se é possível sentar-se comodamente em uma cadeira e prescrever receitas médicas? Mesmo com a máxima mecanização a fins de retirar o homem destes ofícios, ainda sim existiriam inúmeros trabalhos cansativos, estressantes. E caso haja mais pessoas desejando o trabalho de administrador que de operário, como lidariam com o desequilíbrio da demanda? Eles fariam testes vocacionais mirando-se apenas em uma possível inclinação temporária? E uma vez inseridos, no desgosto com o oficio, seriam obrigados a permanecer neles, o que deixaria muitos insatisfeitos? Uma vez insatisfeitos, não haveria rebeliões?

Em resposta ao problema dos incentivos, os defensores da economia planejada alegam que este sistema seria possível com a humanidade remodelada, educada para perder sua natureza individualista, sua inclinação para perspectivas distintas, sua determinação natural a fins de defender algo supostamente maior: o coletivo e uma ordenação que supostamente traria progresso a todos. Este ser robotizado, jamais existiu e jamais existira. Toda doutrinação neste sentido, não são suficientes para sobrepor a natureza humana. Todavia, Mises foi além ignorando estas premissas, focando-se na questão do planejamento central em sua concepção técnica. Assim suponhamos que o homem seja homogeneizado mentalmente e fisicamente, como em uma ficção cientifica onde são iguais, produzidos em laboratório e que em caso de qualquer inclinação a outra perspectiva sofra lobotomia. Eles trabalharão arduamente para o bem da grande estrutura. Nesta especulação, como saberiam o que devem produzir, em que fase, quanto do produto em cada fase, quais técnicas ou matérias primas e como saberiam se os processos e custos são eficientes?

Mises descreve quem sociedades modernas, cujas economias são complexas e mais avançadas que ao nível familiar primitivo de sociedades tribais (onde há abundancia de recursos se comparado a sua população) planejadores centrais são incapazes de responder perguntas referentes à produção. Sem propriedade privada, não há trocas voluntárias que valorizem os julgamentos particulares e assim sendo, não há mercados. Sem mercados não há formatação de preços. Sem formatação de preços não há meios de acentuar a oferta e demanda através de cálculos econômicos. Cálculos econômicos são as comparações das receitas previstas e os custos esperados, expressos em meios de operações contábeis cardinais. Em outras palavras, os valores expressos nos preços que existem através de trocas voluntárias, imprimem informações necessárias para coordenar o processo produtivo. Mesmo que o governo defina os preços dos inumeráveis bens e serviços, seu calculo não é real, pois não capta as necessidades particulares existentes na troca. Por tais  vias, o planejador central não compreenderá a escassez relativa dos fatores de produção e seus usos alternativos, atuando as cegas.

Para compreendermos este problema; suponhamos uma fábrica de veículos. Como em qualquer outro empreendimento, existem inumeráveis métodos técnicos sua gestão e uma ampla quantidade de recursos utilizados na produção destes bens de consumo. Recursos naturais levam tempo para serem encontrados e se esgotam com seu consumo visto que são finitos. Logo, pode incidir a escassez de determinada matéria prima como no caso de determinada fibra utilizada em um componente específico. Com o esgotamento esporádico deste recurso, a fábrica é forçada a utilizar novos métodos produtivos. Sem uma livre formatação de preços indicando a escassez, não é possível encontrar uma solução de menores custos com relação aos preços futuros do produto final, o que impede a conclusão se o investimento é ou não viável.  No emaranhado de indústrias socialistas produzindo bens em diversos estágios, como poderiam avaliar se os bens ficaram por demasiado tempo na linha de produção ou se houve desperdício de recursos? Como avaliar o método mais lucrativo sem a noção das despesas empregue na produção? Simplesmente não há meios!

Referências:

Ludwig Von Mises – O cálculo econômico sobre o socialismo

Ludwig Von Mises – Ação Humana

Israel M. Kirzner – O debate cálculo econômico : Lições para os austríacos

article-2255693-16B57A8C000005DC-948_964x647A escassez que provocava imensas filas na URSS é um exemplo claro do problema de cálculo econômico. O planejador central, mesmo aceitando a necessidade de usar moeda, não o fazia baseado nas trocas voluntárias ou propriedade privada.

Christiano Di Paulla

Continuação: https://resistenciaantisocialismo.wordpress.com/2013/11/17/problema-de-calculo-economico-parte-2/

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