Divisão do trabalho e dispersão do conhecimento

Publicado: novembro 1, 2013 em Marxismo

A alienação do trabalho segundo as teorias de Marx deve-se a divisão do trabalho (especialização) existente naquilo que denomina como “modo de produção capitalista”. Sua resposta para este problema seria a atividade produtiva sob os moldes do socialismo, pois esta envolveria o trabalhador em todo processo, sendo ele conhecedor de cada etapa, tal como se fosse possível ao intelecto dominar todas as atividades humanas. Para chegar a uma conclusão tão absurda, Marx não somente despreza a questão do conhecimento limitado, dos anseios dos trabalhadores diante as atividades que lhe agradam ou não, mas também ignora que a divisão do trabalho é um fator fundamental para o aumento da capacidade produtiva dentro de uma sociedade. Este fator difere aquilo que intitulamos como civilização das remotas culturas tribais. Neste sentido, a eliminação da divisão do trabalho, responsável pela especialização da mão de obra, causaria um retrocesso a níveis primitivos, no qual apenas uma fração da população atual seria capaz de sobreviver.

Adam Smith fora o primeiro a dar ênfase à divisão do trabalho. Nos três primeiros capítulos da obra A Riqueza das Nações, Smith apresenta argumentos contundentes que corroboram a ideia de o aprimoramento da produção é um resultado direto da divisão do trabalho. Para Smith, a produção individual que de desenvolve do começo ao fim de determinado produto pode ser considerada uma forma primitiva de trabalho. Seu exemplo principal é o trabalho de um artesanal, onde o trabalhador executava praticamente todas as funções. Por exemplo, o tecelão, fazia o fio e o tecia; o sapateiro preparava o couro, cortava-o e o costurava produzindo o sapato. Estas produções domésticas dependiam de um nível de conhecimento que dificilmente era transmitido senão pela tradição. Era comum nesta época, os pais ensinarem aos seus filhos seus ofícios, além de trabalharem juntos. O processo era demasiadamente lento, atendia a uma demanda periférica e com custos elevados, se comparados ao que seria oferecido pela indústria.

Diferentemente do que ocorria na produção artesanal, a produção industrial de manufaturas no qual cada trabalhador responde a uma tarefa específica surgira naturalmente como um aprimorado do método produtivo, resultando em abundancia e consequentemente na queda dos preços, assim representando um estágio mais desenvolvido. Smith alega que ao direcionar uma tarefa especifica a determinado trabalhador, ele possuirá uma disponibilidade maior para ampliar suas habilidades dentro desta mesma função. Eles não perderiam tempo entre uma atividade e outra, mas dedicaram seus esforços especializando-se em uma única atividade. A destreza resultante seria benéfica à produção, pois o trabalhador exerceria a tarefa de modo mais rápido e dinâmico. A especialização imprime ao trabalhador um domínio maior da atividade que exerce, permitindo que possa pensar novas soluções a fins de aprimorar seu oficio. Assim há o surgimento de novas invenções, aprimorando as máquinas a fins de facilitar o trabalho, dando continuidade ao ciclo iniciado com os primeiros engenhos industriais.

Segundo o economista britânico, a divisão do trabalho era extremamente benéfica para uma nação, levando riqueza as camadas mais pobres, o que melhoria sua qualidade de vida de forma gradativa.  Assim seria, pois a produção associada à livre competição entre empreendedores propiciaria a queda dos preços, tornando as mercadorias acessíveis aos mais pobres. Smith chegara a estas conclusões analisando o desenvolvimento e a riqueza das nações ao analisar a voluntariedade de seus mercados. As nações no qual os ofícios permaneciam aos moldes feudais, passando de pais para filhos e com pouco ou nenhum contato com o mundo industrializado permaneciam atrasados e com altos índices de pobreza. Mesmo séculos depois de Smith teorizar estas premissas, podemos notar este fato em nações que se negaram a reconhecer a necessidade de industrialização, como no caso da Índia do século XX. Já as nações industrializadas reduziam a pobreza de forma gradativa, uma vez que os mais pobres passavam a ter um acesso cada vez maior a aquilo que produziam, ao contrário do que alegava Marx.

Todo este progresso somente fora possível graças à alienação do trabalho, que segundo Marx seria negativo para a economia e para a sociedade. Marx parecia supor que o domínio de todos os conhecimentos fosse possível no tempo de um simples piscar de olhos, o que não é verdade. O primeiro economista a citar este engodo fora Friedrich Hayek.  Segundo o economista austríaco, as tecnologias, métodos de produção, disponibilidades dos recursos e os anseios dos consumidores mudam constantemente em um nível inteligível ao intelecto humano ou de meros planejadores centrais. Esta gama de variáveis não podem ser conhecidas nem dominadas, mesmo porque se renovam em uma velocidade incalculável. Mesmo central impondo-se sobre a privacidade de todos, não há meios suficientes para computar e trabalhar estas informações a tempo, o que produz erros críticos que pesariam sobre a produção. Esta complexidade crescente depende em exclusivo de mecanismos decentralizados para a correção erros, contornando as limitações dos conhecimentos individuais.

Hayek também é exímio ao citar que o mecanismo de preços permita a interação entre todos estes elementos insondáveis sem que ninguém conheça os detalhes de cada método produtivo, de cada anseio do consumidor ou com relação à escassez de determinado recurso. As novas invenções tecnológicas imaginadas pelos engenheiros serão previamente testadas e lançadas no mercado em seu devido tempo, a demanda de mercadorias será explicita por sua falta nas prateleiras enquanto a escassez de recursos será notada pela inflação dos mesmos. Graças ao sistema de preços, pessoas diferentes cultura, ofício ou classes sociais, estarão ligadas pelo pensam, demandam e produzem, interagindo sem conhecer umas as outras. Como cita o filósofo e matemático Alfred Whitehead: “a civilização avança através do número de operações importantes que podemos realizar sem pensar nelas.” Neste sentido, podemos desfrutar de meios de transporte, comunicação, medicamentos e utensílios domésticos, sem que seja preciso conhecer todo o processo produtivo. Assim somos livres para nos dedicar ao nosso aperfeiçoamento naquilo que mais estimamos.

O filosofo norte americano W. W. Bartley III mescla as premissas de Hayek à filosofia de Karl Popper, demonstrando que a alienação é um processo inevitável, benéfico e indissociável da natureza humana. Para ele, uma vez que o conhecimento detém consequências imprevisíveis (Popper), ao mesmo tempo em que a ação humana é baseada num conhecimento disperso (Hayek), nunca poderemos antecipar as consequências de nossas ações. Devido à natureza incomensurável da realidade o conhecimento e as consequências da ação, fogem do controle, anulando as expectativas. Neste sentido, o homem é passivo ao erro, a aprendizagem e a correção de seus equívocos por meio da racionalidade. Da mesma forma progride a ciência empírica e as ciências econômicas, através da experimentação, fracasso e acerto. Uma formula ou método de produção é testado, podendo gerar reações não esperadas, tal como ocorre com um novo produto lançado no mercado. Logo, o progresso está na atuação de agentes descentralizados cuja seleção distinta de suas ações permitirá avaliar e corrigir os erros em um processo vital de alienação.

Conclusão:

A divisão do trabalho e a consequente dispersão do conhecimento sempre existiram. Marx nem ao menos percebera que na própria idade média, o artesão era alienado com relação ao ferramenteiro que criada seus instrumentos e com todos aqueles que lhe serviam. Marx também não percebeu em sua teoria, que um trabalhador responsável pelos cabos de uma panela, não é o produtor panela, mas um agregado. Sem que haja esta divisão do trabalho, uma simples panela dificilmente seria feita. Seu produtor deveria compreender como produzir ferramentas para extrair o aço, qual temperatura e o procedimento e o mesmo com relação ao cabo e a uma possível camada antiaderente. Quanto falamos de computadores, aviões, automóveis ou usinas nucleares isto torna-se impossível. Marx parece ignorar os avanços tecnológicos e suas consequências técnicas para a produção em massa de manufaturas. Não é atoa que o conceito de alienação migrou para outras áreas através da escola de Frankfurt – sem deixar de representar uma gama de conceitos falaciosos.

Referências:

A Riqueza das Nações – Adam Smith

Livre para Escolher – Milton Friedman

Ação Humana – Ludwig Von Mises

Alienação, Desistências e as Reivindicações de Parasitas – Friedrich Hayek

Epistemologia Evolucionária, racionalidade e sociologia do conhecimento – W.W  Bartley, Gerard Radnitzky e Karl Popper

Land-Rover-Evoque-15-fábricaSem a divisão do trabalho seria impossível manter a abundância de bens de consumo nos países de primeiro mundo.

Christiano Di Paulla

comentários
  1. […] Refutação a exploração do trabalho Divisão do trabalho e dispersão do conhecimento […]

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